O velório é um dos rituais pós-morte mais tradicionais em todo o mundo. No Brasil, a realização desse ritual já passou por diversas modificações. Antes de 1950, os velórios eram feitos exclusivamente na casa da família, onde tinham duração de pelo menos 24 horas. A partir desta data, começaram a surgir as casas funerárias, que ficavam responsáveis pelo atendimento de todo o funeral. Aos poucos, os velórios foram sendo levados para locais próprios, conhecidos popularmente por capelas. A duração das celebrações realizadas em capelas também girava em torno das 24h. Nos últimos anos, com a influência americana sobre a realização de rituais fúnebres, o tempo de duração foi diminuindo gradativamente.

Em 2020, no entanto, com a pandemia pelo novo coronavírus, foi preciso que nos readequássemos de uma hora para outra à nova forma de realizar os velórios. Isso ocorreu de duas maneiras:

  1. Na maioria das cidades brasileiras, os velórios foram proibidos para falecidos por infecção da COVID-19. Alguns lugares proibiram a realização de cerimônias até mesmo para óbitos cuja a causa é suspeita de infecção pela doença.
  2. Além disso, os velórios das pessoas falecidas por qualquer outra causa também passaram por alterações. O tempo de duração foi reduzido a apenas 3 ou 4 horas. Também , somente pessoas muito próximas do falecido podem frequentar.

Por isso, para entender melhor qual é a função do velório e compreender as novas modificações que a prática ganhou, chamamos a psicóloga Maria Luiza Pradella Ramos para conversar conosco. Maria Luiza é especialista em situações de luto e, aqui neste conteúdo, irá esclarecer alguns pontos pelos quais estamos passando.

A função social do velório

Durante todo o processo de evolução da humanidade, e nas mais diferentes culturas, os rituais representam marcos importantes no ciclo evolutivo. De acordo com Maria Luiza, a autora americana Evan Imber-Black destaca que “os rituais fúnebres cumprem importante função, tanto na preservação da cultura, como na facilitação do processo do luto”.

Maria Luiza pontua que, ainda de acordo com a autora, “os rituais facilitam a expressão do sofrimento individual, marcam mudanças nos relacionamentos, ratificam a perda na família e possibilitam a elaboração de toda a comunidade.  Ao mesmo tempo em que auxiliam a conferir sentido a uma perda, e apontam, aos vivos, um sentido de continuidade”.

O velório, em tempos de pandemia

Como vimos anteriormente, tudo mudou. De repente, o ser humano teve uma drástica mudança nos rituais de despedida aos entes queridos. Esse fato deu origem a um novo enlutado. Esse indivíduo é alguém que sofre de múltiplas formas e nós explicamos melhor neste outro texto sobre o novo enlutado.

Tal contexto, segundo Maria Luiza, “nos coloca diante da necessidade de buscar novas estratégias, para expressar essa dor imensa e buscar um sentido a essas perdas, que não ocorrem só pela morte. Vivemos, hoje, um luto coletivo pelo mundo presumido. Pela liberdade que perdemos, pela impossibilidade de fazermos planos, pelo trabalho, que muitos perderam… Enfim, nada mais será como antes”, esclarece.

A internet como meio

Uma possibilidade para restabelecer as celebrações, de acordo com Maria Luiza, será o uso da internet. “O espaço virtual, através das redes sociais, surge como uma nova forma possível de expressar a dor da perda e de encenar o luto no tempo presente. É nele que nos relacionamos, que trabalhamos, que expressamos nossos sentimentos em relação ao caos, que se estabeleceu no planeta. É nele que a vida acontece”.

Neste contexto virtual, indica a psicóloga, “podemos descobrir formas possíveis de expressar nossas emoções, viver o nosso luto e criar espaços, para reverenciar nossos mortos, para que não se tornem apenas números desta cruel estatística. Por trás de cada número, existem histórias de vida, que merecem ser reverenciadas e uma forma de fazer isso é através da criação de memoriais nas redes sociais”.

Momento para o novo

O velório, enquanto ritual fúnebre, se modificou ao longo dos anos. Esse é um ponto que já vimos lá no início do texto. Segundo a psicóloga, o caminho para reencontrarmos uma forma de celebração das cerimônias de despedida será a partir do novo.

“Criar novos rituais de despedida online, ou até mesmo presenciais, quando isso for possível, pode ser, também, uma alternativa a qualquer momento, pois os rituais são atemporais. Esses podem ser feitos em datas especiais ou, quando a família estiver preparada para tanto, uma vez que mortes traumáticas como estão sendo as mortes por coronavírus, podem causar um grande impacto nas famílias”, comenta.

Para Maria Luiza, o importante é que este novo espaço para a realização das cerimônias promova a interação e gere acolhimento entre os enlutados. Ainda, este novo tipo de celebração deve ser pleno de significados e precisa reverenciar, de forma respeitosa, a pessoa falecida. Além do mais, presencial ou online, o ritual precisa ser bem conduzido. Assim ele cumpre com a sua função na facilitação do processo do luto.

Sendo assim, é importante se informar antes e saber o que é necessário para realizar um velório e como você pode torna-lo realmente significativo. Acesse os materiais clicando nos links destacados.

Aqui neste outro material, em nosso blog, temos um guia completo sobre como reconfortar o novo enlutado. Acesse e descubra como você pode ajudar neste momento.

Gostou deste artigo? Tem alguma sugestão que possa agregar para a realização de uma cerimônia fúnebre nestes novos tempos que estamos vivendo? Deixe seu comentário aqui abaixo! Ele será muito bem-vindo!