Quem não sente saudades de alguém que já não está mais aqui, não é? A saudade é uma palavra que não existe em todos os idiomas, mas tem seu dia especial aqui no Brasil: 30 de janeiro é considerado o Dia da Saudade. Por isso, contamos, aqui neste texto, um pouco sobre como a saudade foi uma importante aliada para a construção social sobre a cultura da morte.

Trouxemos o depoimento da Drª Jenny González Muñoz, formada em Artes, mestre em Memória Social e Patrimônio Cultural, doutora em Cultura e Arte da América Latina e pós-doutoranda em História. A partir dos estudos já realizados pela doutora, entenderemos alguns pontos essenciais sobre a cultura da morte e sua evolução. Vamos lá?

A influência das crenças

Muitos dos estudos de Jenny se baseiam na bibliografia europeia, visto que a Europa sempre foi pioneira nas tendências de práticas pós-morte.

De acordo com o autor, Philippe Arriès (1914 – 1984), historiador e medievalista francês, as visitas aos cemitérios estão ligadas ao sistema de crenças. As sociedades orientais e ocidentais focavam mais em preservar a memória dos mortos que dos vivos. Exemplos disso são as pirâmides no Egito, Petra na Jordânia, Taj Mahal, entre outros. São lugares de memória.

Jenny explica que as famílias faziam investimentos para a morte que nem mesmo em vida eram feitos. O que une todas as sociedades é que lembrar dos mortos sempre foi imprescindível. O vestígio de muitas sociedades ocorre a partir da morte. Assim, muitas histórias foram provadas e contadas de geração em geração.

Debaixo da igreja

Uma característica do Ocidente relacionada ao sepultamento é de que as pessoas eram originalmente enterradas na igreja. A doutora menciona que ser sepultado em um lugar assim era sinal de status, de poder aquisitivo. Esse costume refletia o foco no materialismo, no poder econômico.

Era considerado uma honra para sacerdotes e poderosos estarem enterrados sob o piso da igreja. Mostrava humildade o fato de aceitarem serem “pisados” pelas pessoas que passassem ali.

Os mais simples iam para o lado da igreja. À época, era feita a separação entre brancos e negros, homens, mulheres e crianças. As famílias não eram sepultadas juntas. Os jazigos familiares, quando haviam, eram uma grande exceção. 

A morte era um evento natural

Você se imagina organizando o velório de um ente querido em sua própria casa? Jenny lembra que, até meados do século XIX, os velórios eram realizados em casa e a preparação do corpo do falecido para as cerimônias finais era feita ali mesmo. A morte não era um tabu, de acordo com a especialista. As pessoas aceitavam de forma mais natural o óbito.

No fim do século XIX, na Europa, iniciou esse processo de perceber a morte de forma ruim. Próximo à chegada da modernidade, os doentes não ficavam mais em casa, mas passavam os últimos dias no hospital, conforme as condições financeiras, claro.

Surgiram aí as funerárias. Não eram mais apenas profissionais isolados que preparavam o corpo ou faziam o sepultamento, mas um serviço institucional organizado para o funeral.

Notícias em Passo Fundo

Em Passo Fundo, por volta de 1930, era notícia no jornal a chegada do primeiro carro funerário da cidade. A institucionalização da funerária provocou uma mudança para um olhar mais comercial, diminuindo o envolvimento dos parentes com o corpo.

As próprias orações, realizadas durante nove dias em casa, passaram a ser situadas na igreja, afastando o assunto da morte do convívio familiar.

O luto veste novos hábitos

A vestimenta tradicional do luto, os trajes em preto, usados por anos em alguns casos, mudou para um luto interno.

Até o século XIX, o velório era mais do que o momento de se despedir, era de compartilhar, contar histórias. No México, além de compartilhar a comida, alguns pratos eram deixados para os mortos. A chegada da modernidade provocou uma ruptura na forma de se lidar com a morte.

A negação da perda começou a ser mais frequente desde que o tabu sobre a morte aumentou. As visitas ao cemitério diminuíram. A insegurança pública provocou uma série de mudanças, inclusive no ir e vir, e fez com que os cemitérios fossem menos frequentados, especialmente, após a ocorrência de furtos em jazigos e de pertences pessoais em sepultamentos.

O ritmo da vida também acelerou e sobra menos tempo para visitar os entes que já foram.

Para que ir ao cemitério?

Os cemitérios, que já tiveram bela arborização e grandes obras de arte, perderam status de lugar de passeio, de museu, de história e arte. Abandonado por instituições e pessoas, o cemitério monumental perdeu a importância. Viraram, em grande maioria, locais descuidados, sem higiene e segurança.

Mesmo assim, o cemitério monumental é um lugar de memória. No fundo, não foram feitos para os mortos, mas para a memória dos vivos. Há textos, datas e artes que contam histórias de pessoas, famílias e comunidades. Revelam influência, poder aquisitivo. No Brasil, ainda há locais com monumentos feitos por artistas famosos na França, por exemplo, e enviados para o Brasil. Ornavam o centro da necrópole para demonstrar status social.

A nossa sociedade tem agora uma relação diferente com a morte, mas ainda se importa.

“As sociedades humanas precisam de algo material para lembrar. O ser humano tem medo de esquecer. Criamos suporte de memória para não esquecer, mas acabamos esquecendo”, reforça a doutora Jenny.

Mas ninguém quer ser esquecido, não é mesmo? Assim como ninguém quer que as pessoas esqueçam daqueles que foram importantes, seja dentro da família, para uma determinada crença ou cultura: memórias são construídas para perpetuar o legado daqueles que já se foram. E essa é a base da saudade. Mário Quintana certa vez citou que “O tempo não para. Só a saudade é que faz as coisas pararem no tempo”.

De quem você lembra com carinho? A qual túmulo ou lóculo faria uma visita? Não esqueça quem foi importante e deixou até hoje traços na sua história.