A situação da COVID-19 trouxe ao mundo inúmeras mudanças, inclusive referentes ao luto. Grupos de estudos voltados à área descrevem que, no cenário em que vivemos atualmente, temos um novo enlutado.

Este novo enlutado sofre de múltiplas formas. Neste texto, vamos falar um pouco sobre a maneira como acontece esse novo luto.

A situação do novo enlutado

De acordo com as pesquisas recentes nos campos do luto e da psicologia da morte, o novo enlutado é um indivíduo que sofre por diferentes fatores. Aqui abaixo, vamos elencar e descrever cada uma delas para que você consiga entender melhor.

  1. Dor pela perda do ente querido

Esse é o motivo esperado e natural, referente a uma perda. De acordo com pesquisadores, o falecimento de alguém pode deixar de 4 a 11 pessoas passando pela experiência do luto. No entanto, os enlutados que passam por uma perda em decorrência da COVID-19 já começam esse sofrimento uma etapa antes.

Normalmente, as vítimas do novo coronavírus são internadas em hospitais, muitas vezes em UTIs, quando os casos são graves. A partir do momento da internação, os familiares já não têm mais contato com a pessoa.

Quando o óbito ocorre no hospital, significa que há muito tempo a família já não via, não abraçava e não sentia a presença daquele ente querido. Além disso, não há velório nem cerimônia para fazer uma despedida. A psicologia da morte ressalta que o entendimento de uma perda começa quando a família pode ver a pessoa sem vida. Pode tocá-la, sentir a pele gelada e perceber, de uma maneira física, que aquele ser não voltará à vida.

O novo enlutado, por sua vez, é impossibilitado de viver este momento.

  1. Imersão na crise global

Lado a lado da dor da perda, que já tem fatores muito mais agravantes do que nas condições que não contemplam o cenário de pandemia, o enlutado está e continua imerso em uma crise global. A preocupação com o que se vê nas notícias, o choque da realidade por ter experienciado uma perda de alguém amado pela doença e a incerteza de o que acontecerá daqui para frente são fatores que pesam ainda mais na elaboração deste luto.

  1. Ameaça da própria saúde

Sendo uma pessoa próxima de alguém que contraiu, desenvolveu e faleceu em decorrência da doença, há uma grande chance de o enlutado também ter contraído a doença.

Além da dor da perda, essa pessoa também tem a preocupação com a própria saúde e com as consequências que pode sofrer pela quarentena.

  1. Ausência de rituais de despedida e da rede de apoio

Uma das medidas de prevenção ao contágio pelo novo coronavírus é que, em óbitos suspeitos ou confirmados de COVID-19, não pode haver velório. Não porque a pessoa falecida possa ser uma transmissora do vírus, mas porque as pessoas mais próximas deste ente falecido correm o risco de também estarem infectadas.

Isso rompeu uma tradição muito grande que a sociedade tem, que é a de se realizar rituais para a despedida de alguém importante. O velório, enquanto principal ritual póstumo, tem a função social de conectar o enlutado à sua rede de apoio. Essa rede é composta pelos amigos próximos e outros familiares, que oferecem à pessoa em luto a força necessária para enfrenta-lo.

Impossibilitado de viver o ritual de despedida, o novo enlutado perde também o contato com a sua rede de apoio. Desta forma, sem os rituais, ele sente que está sozinho em sua jornada para a superação do luto.

Esses fatores, encaminham o enlutado para a possibilidade de entrar no que a psicologia chama de “luto complicado”. No próximo tópico, vamos ver um pouco sobre essa definição.

O que é o luto complicado?

De acordo com a psicologia, o luto é complicado quando a reorganização interna fica dificultada por fatores extra morte. Ou seja: quando há questões além da perda em si que interferem na vivência do luto.

Alguns exemplos de fatores que podem propiciar um luto complicado são os que citamos acima. A internação da pessoa que faleceu, a crise global, a impossibilidade em dar um abraço e o fato de não haver rituais.

É nessas circunstâncias que o luto tende a permanecer não resolvido. A questão pode se prolongar por anos ou, até mesmo, pelo resto da vida do enlutado.

Por isso, a rede de apoio deve se fazer presente, mesmo que de maneira digital, na vida do enlutado. Fazer essa pessoa perceber que há carinho do outro lado da tela ou da linha telefônica pode ser de extrema importância para não deixar o luto complicado acontecer.

O enlutado por questões à parte

Falamos, até o momento, de pessoas que perdem seus entes queridos por conta do novo vírus. Mas não podemos deixar de citar os enlutados por questões além do coronavírus. Acima de tudo, devemos ter em mente que as outras doenças e causas de falecimento não deixaram de existir.

Sendo assim, milhares de pessoas, todos os dias, ainda perdem seus amados e passam pelo processo do luto, independentemente de estarmos passando por uma crise global ou não. No entanto, essas pessoas também têm o processo de luto travado pelas questões ligadas à pandemia.

  • Os velórios foram limitados a 4 horas de duração;
  • Apenas 10 pessoas podem participar das cerimônias;
  • O processo todo é muito cauteloso e, consequentemente, menos afetuoso.

São tempos difíceis para o enlutado que, de qualquer forma, tem a sua elaboração do luto dificultada.

Esse indivíduo também está passando por uma dor imensa. E, de qualquer forma, irá precisar do apoio de sua rede. É preciso não esquecer deste enlutado e também demonstrar carinho e estar disponível para as necessidades dele.

Ainda, é considerável ressaltar a importância de ter o acompanhamento de um profissional para a elaboração do luto. Assim, ele poderá ser vivido da maneira mais saudável que for possível. Em se tratando do novo enlutado, é ainda mais necessário que esse auxílio profissional ocorra.

Se você está passando pelo luto neste momento de pandemia, não deixe de procurar ajuda! Ela será muito importante para você superar a dor que está sentindo.