Na metade de março, o Brasil começou a sentir na pele os efeitos do novo coronavírus. As autoridades de saúde recomendando isolamento social, grande parte das pessoas foi afastada de suas funções laborais, acabaram as visitas e os passeios em família… e, com isso, um grande sentimento estranho começou a ser vivido, tanto na individualidade de cada um dentro de si, quanto na coletividade. E isso é luto.

No dia 23 de março, Scott Berinato, editor da revista americana Harvard Business Review publicou um artigo falando sobre este sentimento desconfortável pelo qual todo mundo está passando. No texto ele conta que, conversando com a equipe da revista, uma das colegas descreveu o que sentia e nomeou seu sentimento como luto. Em seguida, a equipe buscou explicações com o maior especialista em luto no mundo, David Kessler, que reiterou que sim, isto é luto. Kessler tirou dúvidas e explicou como ocorre este processo e o que podemos fazer para aliviar os efeitos.

Com ajuda do blog “Vamos falar sobre luto?”, buscamos escrever sobre o tema e apresentar aos nossos leitores uma saída para este sentimento que, conforme Kessler, “estamos sofrendo no nível micro e macro”. Vamos conferir?

O luto não é apenas sobre morte

Diferente do que muitas pessoas pensam, o luto é um sentimento desencadeado por uma situação de perda, não necessariamente por uma morte. É natural sentir luto por um relacionamento que chegou ao fim, pela demissão num emprego ou por um pertence muito significativo que você teve de deixar para trás.

Perder o contato físico com as pessoas, não poder sair de casa e estar impossibilitado de fazer coisas das quais gosta, também provocam luto. Afinal de contas, você está perdendo coisas significativas.

No entanto, além do sentimento de perda, a atual situação nos ocasiona mais um aspecto agravante na vivência deste luto: a antecipação. No próximo parágrafo, vamos falar mais sobre este tipo de luto que estamos sentindo simultaneamente.

O que é o luto antecipatório e como ele age?

Na entrevista, David Kessler explica como o luto antecipatório nos afeta.  A verdade é que estamos vivendo o pesar por coisas que ainda não aconteceram e que não sabemos como, quando ou se vão acontecer.

Para traçar um paralelo entre as situações, Kessler evidencia que “sentimos isso quando recebemos um diagnóstico grave, ou quando lembramos que vamos perder nossos pais algum dia”. Nós sabemos que algo ruim irá acontecer, mas este algo não é palpável, não há como vê-lo. É nesta hora que é rompida a sensação de segurança, e o desconforto vem.

O que fazer para aliviar este sentimento?

Como se tratam de vários tipos de luto, há vários exercícios que Kessler propõe para o alívio deste sentimento. Separamos em tópicos para que você possa acompanhar melhor.

Entenda os estágios do luto

Assim como a orientação que os terapeutas dão para a superação do luto pela morte, de alguém, Kessler ressalta que compreender os estágios do luto é a melhor forma de superar este desconforto.

  • Negação: “Esse vírus não nos afeta.”
  • Raiva: “Isso está me fazendo ficar em casa e me tirando minhas atividades.”
  • Barganha: “Ok, se eu me mantiver em isolamento social durante duas semanas, tudo vai ficar bem, certo?”
  • Tristeza: “Eu não sei quando isso vai acabar.”
  • Aceitação: “Está acontecendo, e agora eu preciso descobrir como proceder.”

Ainda aqui, é importante lembrar que o luto não acontece de maneira linear. “Não é um mapa, mas fornece alguns andaimes para este mundo desconhecido”, enfatiza David Kessler.

Drible a ansiedade

O luto antecipatório é uma ansiedade. A ansiedade, por si só, fabrica imagens ruins dentro da cabeça e coloca em pauta os priores cenários. Tentar a todo custo afastar essas imagens não será permitido pela sua mente e pode ser doloroso tentar.

O objetivo aqui é encontrar um equilíbrio. Assim, no momento em que você começar a sentir a pior imagem se formando, imagine a melhor imagem. Todos ficamos um pouco doentes e o mundo continua. “Nem todo mundo que eu amo morre. Talvez ninguém o faça porque todos estamos dando os passos certos”, cita.

Mantenha-se no presente

Enquanto a mente vive o luto antecipatório, ela quer estar sempre lá no futuro, imaginando as coisas que podem acontecer. Por isso, tente manter-se no presente de maneiras simples, como:

  • Cite 5 coisas que estão no ambiente ao seu redor;
  • Respire profundamente e com calma;
  • Perceba que nada do que sua mente havia antecipado antes aconteceu. Você tem comida, você não está doente, você tem onde morar, entre outras coisas que condizem com a sua realidade;
  • Use seus sentidos e reflita sobre o que eles sentem. A mesa é dura, o cobertor é macio, eu sinto a respiração entrando no meu nariz, etc;
  • Mentalize que tudo isso é temporário.

Deixe de lado o que você não pode controlar

O que o seu vizinho está fazendo está fora do seu controle. O importante é que você pode controlar as suas ações e você está fazendo tudo certo.

Tenha compaixão e entendimento sobre os outros

Concentre-se em quem as pessoas geralmente são, não em quem elas estão sendo agora. Talvez a irritabilidade, raiva, ou qualquer outra emoção sobressalente agora seja a forma como a pessoa está lidando com a situação para si. É importante lembrar que medo, insegurança e até mesmo o próprio luto, se manifestam nas pessoas de maneiras diferentes. Então seja paciente consigo e com os outros também.

Um sexto estágio no luto?

David Kessler, na entrevista com a Harvard Business Review, conta que quando escreveu, junto de Elisabeth Kübler-Ross, o livro “Os segredos da vida” (que fala sobre os 5 estágios do luto), ficou feliz por ela tê-lo deixado adicionar um sexto estágio no processo da vivência do luto.

Esse estágio é o “significado”. Ele conta que ele mesmo se sentiu melhor depois que ultrapassou a fase da aceitação e chegou no significado, quando enfrentou o luto pessoalmente.

Então, uma última dica que Kessler menciona para que todos consigamos passar por este período é que possamos encontrar significado nas coisas. Que as pessoas consigam continuar apreciando longas caminhadas, que continuem usando os telefones para longas conversas, entre outros. “Acredito que continuaremos a encontrar significado agora e quando isso acabar”, finaliza.