O luto é um processo natural e complexo, tanto para crianças quanto para adultos. No caso dos pequenos, é de grande ajuda que seus familiares acompanhem o período com respeito e carinho. 

Temos dificuldade para lidar com esse tema enquanto adultos e, às vezes, nos sentimos mal por não conseguir remediar a situação para as crianças. De fato, acompanhá-los durante esse período tão singular pode ser muito benéfico, mas também não podemos fazer o caminho do luto por eles.

É sobre essa e outras discussões que falaremos aqui. Aproveitaremos também o espaço para dar alguns direcionamentos ao encarar esse cenário, que é desafiador, mas faz parte da história de qualquer pessoa. Vamos lá?

Compreenda as particularidades do luto infantil

Apesar das semelhanças, existem algumas diferenças na forma como crianças e adultos vivenciam essa experiência. No caso das crianças, é possível que essa perda seja a primeira grande ruptura que irão conhecer na vida, tornando esse momento ainda mais significativo. 

Essas primeiras experiências com a separação podem dar o tom da maneira como o sujeito irá encarar a morte dali em diante. Nada disso é definitivo e imutável na personalidade, mas sabe-se que os momentos da infância acabam por embasar o futuro do adulto. 

É de extrema importância ressaltar, entretanto, que isso não é um indício de que a criança se tornará um adulto complexado ou traumatizado. Tratar o pequeno que teve uma perda significativa com pena ou com extrema proteção pode ser igualmente danoso. 

Apesar de delicado, esse também pode ser um momento de crescimento e preparação para as perdas naturais da vida.

Dê espaço para a elaboração do luto

Vivenciar a experiência da perda e compreendê-la em seus próprios termos é um direito de qualquer pessoa. Mais do que isso, é um processo que nos transforma e nos torna resistentes às perdas da vida.

Devido ao próprio desespero diante da situação, é comum que adultos tentem mascarar o sentido da morte para as crianças, em um ato de suposta proteção aos sentimentos daquele pequeno indivíduo. Essa é uma noção bastante equivocada.

A morte é uma questão que interroga a todos, sobre a qual devemos, sozinhos, conseguir elaborar nossas próprias respostas. Ainda que acredite que está fazendo um bem, na verdade, você trará problemas ainda maiores ao impedir que a criança entenda a situação a seu próprio modo. 

Isso, no entanto, não deve implicar uma sinceridade brutal com a criança sobre a morte. É possível transmitir o ocorrido de maneira que faça sentido para o universo dela, escolhendo as palavras certas que sejam adequadas para a idade. É o que trataremos no próximo ponto.

Use a sinceridade, não estimule fantasias enganadoras

A honestidade pode ser um grande aliado nesse momento do luto infantil. Nesse primeiro instante, é recomendado que um adulto de confiança consiga dar a notícia difícil. Porém, não existem fórmulas exatas para isso, tudo dependerá da situação de cada caso.

É difícil fazer isso sem entristecer a criança no processo. Mas saiba que esses são sentimentos naturais para qualquer pessoa. Experienciá-los com a assistência e o acompanhamento de adultos pode ser muito proveitoso para o fortalecimento do psiquismo desse indivíduo em formação.

Por outro lado, usar alguns artifícios, como fantasias e mentiras, sobre possíveis retornos do ente querido, por exemplo, pode ter efeitos devastadores! A infância é um momento de formação de conceitos e de atribuição de sentidos. Um sujeito que cresce com dúvidas sobre esses temas pode ter ainda mais dificuldades para aceitá-los durante a vida adulta. 

A questão da linguagem aqui é crucial. Você já deve ter percebido que as crianças tendem a interpretar o que lhes é dito de modo literal. Portanto, a escolha das palavras deve ser feita a partir desse princípio. Usar metáforas, como um sono prolongado, ou uma viagem para uma terra distante, também é desaconselhável justamente por isso.

Compreenda que as mais diversas reações são possíveis

Cada pessoa reage diante do luto de maneiras diferentes, e muitas delas são inesperadas. Não há fórmulas ou esquemas definidos para isso. Existem algumas formulações no campo da psicologia que ajudam a entendê-lo, mas, no fim das contas, cada um terá uma experiência muito singular diante dos rompimentos.

Com as crianças, não seria diferente. Algumas apresentam estados de raiva excessiva ou mesmo de tristeza, enquanto outras aparentemente não demonstram estar afetadas pelo ocorrido. 

Dentre as reações possíveis, é normal que ocorra um período de excesso no campo da fala, ou mesmo longos momentos de silêncio para o infante. Reações físicas também podem ser comuns, como dores de cabeça, desconfortos no sistema digestivo ou, até mesmo, problemas respiratórios. 

Em linhas gerais, é possível que, nesse momento, a criança mude a forma como ela costumava ser, tornando-se, então, quase que um indivíduo completamente diferente por alguns instantes. A família, nesses momentos, costuma se assustar e questionar se está tudo bem com ela.

Tenha coragem para acompanhá-la no processo

Mesmo para os profissionais mais experienciados, esse é um tema difícil de ser abordado. As formulações teóricas que procuraram se debruçar sobre o tema exaustivamente não conseguem estabelecer exatamente o que deve ou não ser dito para uma criança nesse cenário. 

Isso ocorre também pois as primeiras grandes perdas são situações tão dolorosas que, mesmo enquanto adultos, não conseguimos elaborá-las totalmente. Ainda que seja muito doloroso, tenha coragem de estar presente ao lado das crianças da família em situações de morte.

Às vezes, subestimamos a capacidade desses pequenos indivíduos de absorver determinadas questões. Vale ressaltar também que, mesmo que ainda sejam pessoas em formação, elas conseguem sempre compreender, de alguma forma, o que está ocorrendo ao seu redor.

Um dilema comum sobre o tema é a questão de levar ou não ao enterro e de mostrar ou não o ente querido sendo enterrado. Ainda que seja uma cena difícil de ser assistida por uma criança, testemunhar a realidade pode ser melhor do que deixá-la inventar fantasias sobre o que ocorreu realmente.

Ainda que não haja resposta definitiva sobre a questão de levar ou não uma criança a um enterro, lembre-se de que pode ser justo dar a essa pessoa a chance de se despedir pela última vez de alguém que significou tanto para ela.

Discutir um tema como o luto infantil é complexo e desafiador, mas não podemos nos furtar de pensar sobre isso, pois, quanto mais nos afastamos dessas questões, piores são os efeitos para quem ainda precisa aprender sobre temas como a morte. 

Os adultos devem conseguir acompanhar a criança de perto nessa fase, escutando suas dores e dando espaço para a fala. Ao mesmo tempo, é igualmente importante que ela tenha espaço para elaborar sozinha suas próprias questões.

O que achou dessa discussão sobre luto infantil? É um assunto muito delicado, mas sobre o qual não podemos nos privar de refletir! Assine nossa newsletter e conheça outros textos igualmente relevantes sobre temas afins!