A morte, por si só, já causa profundos impactos quando nos deparamos com ela. A questão do suicídio, então, torna a situação ainda mais delicada. Existem muitos tabus sociais que a envolvem, o que dificulta até mesmo falar sobre o assunto abertamente. Isso acaba tornando invisível uma questão bastante importante: como enfrentar a dor do luto por suicídio?

Compreendendo as diversas implicações que o tema do suicídio nos traz, vamos falar, neste post, sobre maneiras saudáveis e recomendadas para lidar com esse acontecimento. Ninguém está verdadeiramente preparado para lidar com um evento desses. Entretanto, é possível pensar a respeito e expandir nosso entendimento sobre o assunto.

Vamos tentar entender a dor do luto por suicídio sob um ponto de vista ético e humano? Desta forma, o debate serve como um auxílio para aqueles que não sabem lidar com esses momentos tão complexos. Vamos lá?

Entenda que o luto é um processo natural

O luto é um movimento interno natural nos seres humanos, desencadeado a partir de uma situação de perda ou rompimento de um laço significativo. 

É importante dizer que não existe um padrão de comportamento “adequado” para essa situação. Cada sujeito tem suas particularidades para reagir à perda e sua própria maneira de elaborá-la. É comum, inclusive, que comportamentos atípicos e inesperados sejam desencadeados por conta desse acontecimento.

Em entrevista, a psicóloga Rosane Pereira Mayer esclarece que tanto no luto convencional quanto no luto por suicídio existem o “desânimo, a desestruturação de uma situação, as mudanças na vida que o luto traz, a angústia, a tristeza e a insônia.”.

Tudo isso pode ser bastante desgastante para quem sofre e para as pessoas ao seu redor. Entretanto, essa é uma fase que não pode ser simplesmente evitada ou ignorada. Ela é parte importante do processo para que seja possível seguir em frente.

Pode-se dizer que tudo isso se agrava quando se trata de um suicídio. Os sentimentos de falha, culpa e impotência costumam ser ainda mais predominantes. Portanto, é necessário termos atenção redobrada a nós mesmos e aos outros quando vivenciamos a perda de alguém por razões tão incompreensíveis.

Por mais difícil que seja vivenciar essa dor, é preciso ter em mente que esse é um movimento natural e passageiro.

Converse com outros entes próximos de quem partiu

Às vezes, faz parte do processo de luto a vivência de alguma forma de isolamento. Isso inclusive pode ser saudável para a elaboração da perda. Entretanto, entre em contato e converse com outras pessoas próximas do ente querido, se possível.

Esteja aberto, também, para as pessoas que procurarem você com esse intuito. Pode até ser difícil para você entrar em contato com tais pessoas, por elas representarem algo que gostaria de evitar. Porém, de acordo com o seu próprio tempo, dê espaço para que esses encontros ocorram.

De toda forma, é provável que isso aconteça naturalmente. Esse tipo de contato é muito valioso, pois tem o potencial de aliviar certos pensamentos que costumam assolar as pessoas próximas de quem se foi nessas condições.

De maneira geral, construir laços de solidariedade entre essas pessoas é benéfico e pode contribuir para a superação desse momento difícil. Não é possível fazer algo que elimine a dor instantaneamente, entretanto, certas ações podem amenizar a força com que esses sentimentos nos afetam.

Saiba lidar com o sentimento de culpa

A culpa é um sentimento bastante presente em nossa subjetividade. É comum que ela ocupe um lugar (que pode ser, até mesmo, “exagerado”) no julgamento que fazemos de nós mesmos.

Em situações extremas, como a de um suicídio de alguém próximo, é comum experimentar uma sensação avassaladora de culpa, que pode perdurar e, até mesmo, impedir o indivíduo de dar continuidade à sua própria história.

É frequente que a pessoa, diante de um trauma como esse, passe a se confrontar, examinando minuciosamente o que poderia ter sido feito para que as coisas ocorressem de outra forma.

Às vezes, mesmo que você compreenda racionalmente que o ocorrido não foi responsabilidade sua, o sentimento de culpa poderá se manter presente. Apesar de ilógica, essa é uma situação frequente que demonstra a complexidade de nossas emoções.

Alimentar determinadas fantasias é um hábito que pode ser perigoso, pois pode nos afastar dos nossos caminhos e das outras pessoas que também são importantes para nós. Saiba zelar e respeitar a memória do outro sem que isso o impossibilite de dar seguimento à sua própria trajetória.

Considere buscar ajuda profissional

Os efeitos do luto certamente podem ser amenizados com a ajuda de um profissional qualificado. Isso não quer dizer que uma terapia seja obrigatória para conseguir lidar com a perda de alguém próximo. Ainda assim, não menospreze o valor de um acompanhamento terapêutico em um momento de crise.

Essa pode ser uma oportunidade para desenvolver um processo mais profundo de terapia. De qualquer modo, não hesite em procurar ajuda. Mesmo que seja para uma conversa pontual, ser ouvido por um profissional com uma escuta qualificada pode ter efeitos valiosos.

Entenda a terapia

A psicóloga, Rosane Mayer, explica ainda que o luto é “um processo que pode ser superado em um tratamento, no qual a pessoa vai entender todos esses sentimentos ambíguos e aprender a lidar com a dor, a raiva, o sentimento de abandono e a desestruturação inicial, compreendendo que não existe situação que permaneça para sempre”.

A terapia é um momento onde a pessoa irá expor todos os seus sentimentos sobre a situação. O profissional, com sua escuta qualificada, irá ajudar a pessoa a elaborar o luto, a partir da compreensão.

Lembre-se de buscar alguém que tenha experiência nesse tipo de trabalho. Para oferecer um tratamento psicológico clínico, é necessário que o profissional em questão tenha uma graduação na área. Além disso, é preciso um registro no Conselho Regional de Psicologia (CRP).

Se você perceber que alguém necessita de um acompanhamento nesse sentido, seja qual for o motivo, recomende que a pessoa em questão procure por um atendimento clínico.

O importante é buscar ajuda!

Caso os recursos disponíveis sejam escassos, é possível acessar atendimentos gratuitos pela rede pública, ou até mesmo encontrar atendimentos nos estágios supervisionados oferecidos pelas faculdades de Psicologia.

Em Passo Fundo, a Universidade de Passo Fundo conta com o SAES (Setor de Atenção ao Estudante). O atendimento ocorre no Campus I da Universidade e o contato de e-mail é o saes@upf.br. O telefone é (54) 3316-8256.

Já a Faculdade Imed disponibiliza a Clínica Escola de Psicologia – Sinapsi, localizada na Rua Senador Pinheiro, 304, Vila Rodrigues. O telefone é (54) 3045-9070.

O Centro de Valorização de Vida (CVV) funciona 24h e atende por chat e e-mail a partir do site www.cvv.org.br ou por telefone no número 188.

A psicóloga também destaca que é possível buscar auxílio com profissionais da área da psiquiatria, “além de ajuda em grupos de apoio, que podem ser dirigidos por profissionais da saúde, ou, também, grupos dentro de uma dimensão espiritual ou filosófica”, indica Rosane.

Seja qual for o motivo, ter a chance de se submeter a uma terapia é um privilégio, uma ação que pode trazer inúmeros benefícios.

A dor do luto por suicídio é uma experiência difícil de ser vivenciada por qualquer pessoa. Seus efeitos podem ser marcantes, mas, ainda assim, é possível elaborar a perda e seguir em frente de alguma forma.

Mesmo que as coisas pareçam irremediáveis diante de uma situação como essa, saiba que sempre há espaço para a construção de novos sentidos e caminhos.

Apesar de a dor do luto por suicídio ser um tema delicado, não podemos deixar de debatê-lo de maneira adequada. Se esses pontos foram relevantes para seu aprendizado, assine nossa newsletter e entre em contato com outros debates qualificados sobre o assunto.