Em meados de março, o Brasil precisou começar uma readequação em todos os setores, para conseguir acompanhar o mundo na luta contra o coronavírus. Nisso, também foi preciso que mudássemos a forma como nos despedimos de nossos entes queridos.

De lá para cá, vimos os velórios tendo cada vez menos duração, cada vez menos gente podendo frequentá-los, os abraços foram vetados e, em muitos casos, as cerimônias de despedida nem foram permitidas.

Esse é um fator agravante para a família enlutada, que acaba por não receber o amparo necessário no momento da despedida de seu familiar. Historicamente, a função social do velório é que a família consiga receber apoio e carinho de todos os amigos e pessoas que fizeram parte da trajetória da pessoa falecida. Essa presença é o que ajuda as famílias a enfrentarem o luto.

Com as medidas de prevenção ficando cada vez mais restritas e cautelosas, as famílias estão perdendo seus entes queridos e perdendo, também, o apoio das pessoas mais próximas.

O diretor do Memorial Vera Cruz, Felipe Badotti, fez uma carta aberta à comunidade falando um pouco mais sobre esse problema oculto que estamos observando, ao longo do último mês.

Confira a carta aberta na íntegra:

No dia em que não pudermos velar nossos mortos, tudo estará perdido

“Quem diria que nossa sociedade ficaria tão doente, que um simples abraço seria proibido? Um abraço que acalenta tantas emoções… que te ajuda em tudo!

Quem diria que as pessoas se afastariam umas das outras? Não consigo processar o que está acontecendo. Não consigo engolir que me despedi de minha mãe que era pura alegria, puro sorrisos e alto astral de uma maneira tão cruel…

Não existem palavras que irão acalmar meu coração, não existe tempo… Só existe dor, uma dor que invade o meu peito, corta minha alma… acelera meu coração, que parece que vou morrer.”

Essas palavras foram publicadas em uma rede social por uma cliente do Memorial Vera Cruz, que teve a infelicidade de ver a mãe falecer nesta época de insanidade e medo. Quando sua mãe ingressou para o crematório, haviam apenas os parentes mais próximos e mais ninguém. Todo o resto da família, todo o resto da sociedade estava em casa, com medo. Não houve uma única pessoa para apoiá-los, ninguém se aproximou da família.

Um velório digno acompanha a humanidade em toda a sua existência. Esse é um dos principais motivos de um velório: que a sociedade possa dar seu apoio àquela família que perdeu a quem ama. Não existe dor maior que perder a quem amamos, essa dor nos persegue e nos ataca por anos, o luto nos consome.

Quando a sociedade, de forma voluntária ou compulsória abandona uma família no momento da morte, vê-se que quem está morrendo, na verdade, é ela própria. Sem solidariedade, pouco resta. O abandono da família no momento do velório é, hoje, quase que uma imposição social, velada e cruel.

Precisamos olhar um pouco mais adiante e perceber que, além de um vírus, existe vida. Vida que experimentará o dia de amanhã. Há pessoas que vão ter de seguir o seu caminho com uma carga extra de dor que não precisariam suportar, caso situações como essa fossem evitadas.

Não temos a pretensão de dizer a alguém para fazer ou deixar de fazer algo, ainda mais em um momento como este. Apenas observamos a dor de quem passa por esse momento e desejamos nos solidarizar.

Morrer não é a pior coisa da vida. Pior é perder sua identidade e com ela sua dignidade.

Felipe Badotti
Diretor do Memorial Vera Cruz.
Passo Fundo, 13 de abril de 2020.