A morte representa um tabu, de certa forma, em todas as sociedades. É um tema delicado e complexo, sobre o qual a humanidade sempre se debruçou e buscou compreensão. Nossa cultura tem uma série de dilemas e receios relacionados ao tema, fazendo dele uma dificuldade para muitas pessoas. A ideia do Café da Morte, ou Death Cafe, é justamente nesse sentido de procurar entender e solucionar, de alguma forma, nossos conflitos com essas questões. A partir do diálogo e da socialização em grupo, é possível construir outras formas de encarar aquilo que parece impossível de elaborar.

Aqui, vamos falar um pouco sobre essa prática, para mostrar como ela pode lhe ajudar a crescer como indivíduo e a elaborar as perdas. Confira!

Afinal de contas, o que é um Café da Morte?

Trata-se de uma reunião de pessoas, que tiveram uma perda recente ou que sentem que estão próximas de partir. Nesse encontro, elas buscam dar um tratamento a essa questão tão complexa por meio da fala.

Pode parecer uma ideia estranha, já que temos dificuldade em falar sobre isso com amigos e familiares, mas é justamente por isso que esses momentos foram criados.

Neles, existe um espaço livre e respeitoso, para que todos possam contribuir com seu próprio ponto de vista e experiências pessoais sobre o assunto. É interessante observar que as pessoas que procuram auxílio são as mesmas que ajudam no tratamento das demais.

Vale ressaltar também que não existe certo ou errado, ou qualquer tipo de julgamento moral nesse lugar. A opinião de qualquer um é igualmente importante, de modo que pontos de vista diferentes só ajudam a enriquecer a discussão.

Como esses encontros podem nos ajudar?

A fala é um ato que produz deslocamentos, que nos faz ter outras perspectivas sobre nosso próprio mundo. A psicologia, enquanto ciência que investiga e atua sobre os afetos humanos, tem inúmeras teorias e práticas de grupo descritas sistematicamente.

Esses profissionais entendem que esse tipo de reunião, para trocar experiências e pontos de vista, tem inúmeros efeitos positivos sobre a subjetividade. Por outro lado, quando nos colocamos em uma posição de isolamento, tendemos a nos aprofundar em crises e processos depressivos.

O contato com o outro pode ser curativo, portanto, não devemos ter receios em falar sobre esses assuntos tão espinhosos.

Para quem eles são voltados?

Eles são inicialmente planejados para pessoas que tiveram experiências recentes de perda e idosos que sentem que precisam pensar sobre o assunto. Parece esquisito levar idosos a refletir sobre a morte, mas, na verdade, isso diz mais de nossos próprios temores sobre o assunto do que qualquer coisa.

Uma sociedade que evita esse assunto a qualquer custa mostra sua própria fragilidade diante do que é incontrolável. Isso nos faz pensar sobre a forma como nos comunicamos com as pessoas sobre o tema. Às vezes, tentamos nos esquivar de tratar disso com tais pessoas, algo que pode ser antiético com tais indivíduos.

Todos têm o direito de elaborar suas perdas e refletir sobre a proximidade com a morte. Isso não é uma atitude fúnebre, e sim de engrandecimento e elevação pessoal.

Ainda que esse não seja o alvo, acreditamos que esses espaços também podem servir para outras pessoas que sintam necessidade de tratar da questão da morte ou que tenham dificuldades com isso.  O ponto aqui é pensar que todos podem ser convidados a falar e construir um espaço de trocas respeitosas sobre o tema.

De que forma surgiram tais encontros?

Eles surgiram no ano de 2011, em Londres, chamados por lá de Death Cafes. Foram criados no intuito de trazer a discussão desse tema polêmico para quem precisava falar sobre isso.

Os Cafés da Morte foram elaborados a partir das ideias de um filósofo suíço chamado Bernard Cretazz e acabaram chegando a muitos outros países, sendo o Brasil um deles. Esses encontros já foram realizados em algumas capitais do país, e estão crescendo por conseguirem atrair um público que de fato necessita desse tipo de espaço.

Podemos pensar que o motivo principal para seu surgimento é a demanda real de indivíduos que estão adoecendo por não poder falar sobre isso. Quantos idosos não são simplesmente silenciados em suas famílias quando querem pensar francamente sobre o fim de suas vidas?

Apesar de difícil e doloroso, devemos saber ouvir e dar lugar de fala para quem necessita conversar sobre isso.

Por que não devemos tratar a morte como tabu?

Estamos cada vez mais distantes da morte e de tudo que a cerca. Um exemplo disso é a dificuldade que temos para conversar diretamente e de maneira madura sobre isso com crianças.

Alguns adultos preferem enganar seus próprios filhos, mascarando a dura realidade como forma de protegê-los, mas, na verdade, podem criar traumas graves nessas crianças. Lembre-se de que é sempre possível tratar do tema a partir de uma linguagem que faça sentido para a criança, no intuito de ajudá-la a compreender a questão.

As configurações sociais atuais colocam para a sociedade cada vez mais a ilusão da imortalidade e rejeição do envelhecimento. Vivemos uma busca pela juventude, que tem efeitos severos trazendo problemas de autoestima e psicológicos para muitos indivíduos.

Tudo isso tem a ver com a questão da morte, que acaba sendo evitada como reflexo desse processo. Ao tratarmos desse assunto de forma mais natural, promovendo espaços para isso, conseguimos evoluir enquanto sociedade, oferecendo um tratamento mais justo às pessoas da terceira idade.

O luto é um processo totalmente humano, que deve ser encarado com naturalidade e vivido da melhor forma possível. Cada pessoa atravessa essa experiência de modo próprio e, às vezes, ela é tão difícil que uma ajuda externa pode ser fundamental para atravessá-lo.

O Café da Morte não é pensado como um substituto para uma terapia convencional ou para uma intervenção psiquiátrica, caso essa seja necessária, mas pode ser encarado como uma fonte paralela de desenvolvimento pessoal e cura.

Sabemos que essa é uma questão muito delicada e que não pode ser simplesmente resolvida e concluída. Ainda assim, poder se debruçar sobre ela sem tabus é uma forma saudável de encará-la.

Já tinha ouvido falar sobre isso? Compartilhe o conteúdo nas redes sociais e leve essa discussão tão importante para quem precisa ouvi-la.