Você se sente preparado para ter de lidar com a morte? Se sente confortável em falar sobre o assunto de forma natural e aberta? Se a sua resposta for “não”, saiba que você faz parte de uma grande maioria de brasileiros que também ainda não estão prontos para enfrentar a morte. Neste texto, vamos explorar um pouco dos resultados de uma pesquisa desenvolvida pelo Studio Ideias, e liderada pelo Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil (Sincep), sobre o assunto. A análise foi apresentada nesta segunda-feira (24/09) na Semana InspirAÇÕES sobre Vida e Morte, em São Paulo. Siga a leitura!

A morte é um fato que chegará a todos. É o ponto final da história de cada uma das pessoas que hoje convivem conosco. No entanto, estar preparado para lidar com a morte é a realidade de apenas uma pequena parcela dos brasileiros. Das mil pessoas entrevistadas em todo o país, apenas 1,6% afirmou não ter receio nenhum em enfrentar a morte de alguma pessoa próxima.

A pesquisa divulgada pelo Sincep mostra que, embora 81,2% das pessoas concordem com que “a morte é a única certeza que temos”, 68% se identificam com a frase “eu sei que a morte virá, mas não me sinto pronto(a) para isso”.

Em linhas gerais, em uma escala de 1 a 5, sendo 1 o equivalente a “nada preparado” e 5 a “muito preparado”, o brasileiro se declara 2,6 preparado para lidar com a morte. Em relação à própria morte, esse índice cai para 2,1.

 

Por que o brasileiro não se sente à vontade com a morte?

Parece óbvio que as pessoas não se sintam à vontade com temas relacionados à morte. Mas por qual motivo isso ocorre, já que ela é considerada o único fato concreto que sabemos sobre a vida?

A Suíça, por exemplo, é precursora na conscientização sobre a morte. O país europeu tornou legal o suicídio assistido ainda lá em 1940. Hoje em dia, a prática já existe em outros lugares como Luxemburgo, Holanda, Bélgica e alguns estados dos EUA.

Apesar de o costume ter nascido em Londres, em 2011, foi um filósofo suíço chamado Bernard Cretazz que desenvolveu a ideia que hoje é chamada de Cafés da Morte ou, originalmente, Death Cafes. Embora o nome seja um pouco intimidante, o propósito dos encontros é que as pessoas que passaram por uma morte recente em seu círculo de convivência possam juntar-se àquelas pessoas que temem pelo fim da vida para compartilhar medos, experiências e conversar de forma franca sobre o assunto.

Os Cafés da Morte já existem no Brasil, mas ainda em poucas proporções. E a propagação da prática pelas cidades brasileiras pode ajudar a aumentar a aceitação da morte. A baixa presença desse tema no dia a dia é um forte indicador para que as pessoas não se sintam aptas a lidar com a morte. De acordo com a pesquisa, 74% das pessoas afirmam não conversar sobre morte de forma cotidiana.

 

Afinal, o que é a morte para o brasileiro?

Você costuma relacionar a morte a sentimentos ruins? A mesma pesquisa revelou que a morte, na visão do brasileiro, não é um conceito, mas um conjunto de sentimentos. Na maioria das vezes, sentimentos ruins.

As principais associações feitas quando se fala em morte são à tristeza (63%), dor (55%), saudade (55%), sofrimento (51%), medo (44%). Uma parcela muito pequena das pessoas entrevistadas afirmou associar o fato a sentimentos que não se enquadram no campo da angústia, como aceitação (26%) e libertação (19%).

A presidente do Sincep, Gisela Adissi, ressalta que, quando conversado sobre o tema com a população brasileira, “a gente cai na definição de angústia para a psicanálise, um conjunto de sentimentos ruins que se manifestam no corpo. Então, estamos colocando a morte muito mais no terreno da angústia do que, talvez, da aprendizagem”.

 

Assunto menos presente para os mais jovens

Falar sobre morte é considerado depressivo (48%) e mórbido (28%), de acordo com as pessoas participantes do estudo. Por isso, apenas 21% dos jovens entre 18 e 24 anos mantêm o tema em suas rodas de conversa. Para as pessoas com 55 anos ou mais, esse percentual vai a 33%. Apesar do aumento, o índice ainda é considerado baixo e aponta, principalmente, que a temática ainda é um tabu.

“Ainda que haja diferença entre as faixas etárias, ela é baixa. Não é que a passagem do tempo transforme a nossa relação com a morte: quando a gente não conversa sobre ela, não é o tempo que vai simplesmente nos ensinar a lidar com isso”, pontua a fundadora do Studio Ideias, Camila Holpert.

 

Quando o tabu ultrapassa os limites

É importante ressaltar que existem níveis diferentes em não querer abordar o assunto. Há quem só trate a morte como um grande tabu e se sinta desconfortável quando o assunto chega à pauta. Há quem alimente superstições acerca do tema, acreditando que a morte virá de forma mais rápida àqueles que a mencionam. E, por fim, há aqueles que, por alguma razão, desenvolveram pânico quanto à possibilidade de morrer.

Essa última alternativa é chamada de tanatofobia e é passível de ajuda médica para que seja tratada. Há meios informais de superar essa fobia, como focar nas coisas positivas da vida, aprender coisas novas, aproveitar o momento presente, cultivar boas amizades, entre outros. Portanto, é sempre importante buscar ajuda profissional para, inclusive, verificar se existe algum trauma, mesmo que inconsciente, bloqueando a aceitação natural deste fato que é a morte.

Nos demais casos, há vários meios de superar essa restrição. É o que vamos ver a seguir!

 

Vamos conversar sobre morte?

A melhor maneira de fazer com que a morte não seja assim tão assustadora é introduzindo o assunto ao cotidiano. Por mais que conversar sobre a morte seja mais fácil apenas quando feito dentro de um círculo íntimo de relacionamentos (57%), é melhor do que não abrir nunca a conversa.

Falar sobre a morte, até mesmo dentro de casa, pode ajudar bastante nesse processo. Refletir sobre sua própria morte e sobre os seus desejos póstumos pode ser um bom método para isso. Você simpatiza com a técnica da cremação? Sabe como ela funciona? Ou prefere métodos mais tradicionais, como o sepultamento? Todos esses questionamentos são válidos e necessários para que a sua família também tenha ciência das suas vontades, quando for a hora.

Algumas doutrinas religiosas também têm conceitos muito bem-definidos com relação à morte. Já pensou em pesquisar alguns e tentar formar uma opinião sobre o que nos aguarda após a vida? As possibilidades são inúmeras e todas estão ao seu alcance!

Gostou desse artigo? Agora você sabe a forma como os brasileiros lidam com a morte, confira a forma como povos de outras culturas enfrentam o fim da vida!